“O Inspetor Geral”, de Nicolai Gogol, ganhou em 1998 uma montagem radicalmente visual, grotesca e circense através da direção de Zé Adão Barbosa e da Cia. das Índias, em Porto Alegre.
Inspirado na clássica sátira política escrita por Gogol em 1836, o espetáculo apresentava uma crítica feroz à corrupção, à decadência moral e às estruturas de poder.
A encenação partia de um teatro físico, imagético e de forte construção plástica. A estética do espetáculo buscava um estado permanente de exagero e artificialidade, aproximando-se da palhaçaria, do grotesco e da escultura viva.
Nesse contexto, a cenografia assinada por Antonio Rabàdan tornou-se um dos elementos centrais da montagem.
A cena era composta por grandes painéis pintados manualmente pelo artista plástico Zezé Kronbauer. Esses painéis funcionavam como enormes quadros móveis que criavam diferentes atmosferas e espacialidades ao longo do espetáculo. Para movimentá-los, foi desenvolvido um sistema mecânico rudimentar construído a partir do maquinário de uma máquina de lavar roupas. Em determinados momentos da encenação, os painéis despencavam sobre os atores, provocando instabilidade visual e física, reforçando a sensação de colapso político e moral presente no texto.
Outro elemento fundamental da cenografia era um grande sofá multifuncional que se transformava constantemente durante a peça: chaise, mesa, plataforma, cama e estrutura cênica. Esse único objeto assumia diferentes funções dramatúrgicas e operava como eixo central da movimentação dos atores.
O figurino, também assinado por Antonio Rabadan, antecipava discussões que hoje se aproximam do upcycling e da ressignificação têxtil.
Naquele momento, ainda em processo de descoberta enquanto ator, cenógrafo e figurinista, Rabàdan desenvolveu os figurinos inicialmente como desenhos idealizados. Porém, diante das limitações financeiras comuns às produções teatrais independentes da época, tornou-se impossível executar as peças utilizando materiais novos.
A solução encontrada transformou-se no principal conceito do figurino.
Junto da figurinista e costureira Titi Lopes, roupas usadas, tecidos domésticos, peças antigas e aviamentos foram completamente desmontados, separados e reconstruídos manualmente para formar novas superfícies têxteis. O processo envolvia desconstruir roupas já existentes para recriar tecidos híbridos que posteriormente davam origem aos figurinos do espetáculo.
Essa lógica de reaproveitamento e reconstrução antecedia práticas contemporâneas ligadas à sustentabilidade, ao reuso e à moda circular, embora naquele momento surgisse sobretudo como necessidade prática e solução criativa.
A maquiagem expressionista, as cabeças escultóricas, os enchimentos corporais e os acessórios ampliavam ainda mais a deformação caricatural dos personagens, construindo uma atmosfera entre o circo decadente, a corte barroca e o grotesco político.
Antonio Rabàdan recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Figurino pelo espetáculo.
O elenco era composto por: Antônio Rabàdan, Jaqueline Pinzon, César Abreu, Gustavo Curti, Juliana Rivet, Letícia Vieira, Viviane Narvaes, Paulo Reyes, Silvia Duarte, Luciane Prestes, João Mello e Liza Gutierrez.
Ficha Técnica:
Texto: Nicolai Gogol
Direção: Zé Adão Barbosa
Montagem: Cia. das Índias
Diretora Assistente: Jaqueline Pinzon
Cenário: Antonio Rabàdan
Assistente de Cenografia: Juliana Rivet
Criação de Painéis: Zezé Kronbauer
Figurinos: Antonio Rabàdan
Desenhos de Figurino: Luciana Chaves
Confecção de Figurinos: Titi Lopes e Mada Oliveira
Enchimentos: Janine Gomes
Chapéus: Juliana Kunz
Bijuterias: Cigana Sally
Cabeças: Antonio Rabàdan
Maquiagem: Zé Adão Barbosa
Iluminação: Fernando Ochoa
Sonoplastia: Eduardo Manera
Criação Gráfica: Alessandro Salvatori
Fotografia: Myra Gonçalves
Divulgação: Renato Campão